Drª Tânia Laboratório Médico

30-Maio-2018 Hora 09:04   Artigo descreve novas frentes de diagnóstico para a fibrose cística

 

 

Pesquisadores usam placa de sílica que seleciona biomarcadores da doença.

 

Artigo de pesquisadores da Unicamp publicado na revista suíça Frontiers in Pediatriacs, de alto impacto na área de Pediatria, sugere uma nova forma de diagnóstico para a mutação mais grave da fibrose cística. A técnica emprega uma pequena placa de sílica que, pressionada levemente sobre a pele, seleciona biomarcadores específicos para a doença, a partir de impressões cutâneas dos pacientes, os quais são extraídos com solventes e levados à leitura em espectrômetros de massas. Bastam 30 segundos para que o equipamento obtenha o resultado das amostras.

 

A publicação é intitulada Skin biomarkers for cystic fibrosis: a potential non-invasive approach for patient screening, cuja tradução em português é “Uma abordagem potencial não invasiva para triagem de pacientes”. É fruto da tese de doutorado de Cibele Zanardi Esteves, orientada por Rodrigo Catharino e desenvolvida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM).

 

A fibrose cística, explicou Rodrigo Catharino, é uma doença genética hereditária causada por alterações em um gene defeituoso, o CFTR. Este defeito, ou mutação, altera a produção de suor pela pele, de muco pelos pulmões e secreções digestivas. “Essa é uma condição grave que acomete uma em cada oito mil pessoas no Brasil.”

 

Segundo o docente, os espectrômetros conseguem detectar metabólitos de elevada sensibilidade e especificidade utilizados como marcadores para esse diagnóstico. No estudo, foram eleitos marcadores químicos de várias classes moleculares, representados por ácidos biliares, um derivado de ácido glutárico, hormônio liberador de tirotropina, um mediador inflamatório, um ácido fosfatídico e isômeros de diacilglicerol.

 

Esses marcadores sinalizam distúrbios metabólicos devido à fibrose cística. O método já está patenteado junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) e seu uso se mostra vantajoso, pois não causa dor ao paciente, além de ser simples e rápido. Logo, a detecção precoce da doença – já iniciando com as terapias específicas – proporciona ao paciente um melhor prognóstico e uma melhor qualidade de vida. “E, por análise estatística, é verificado se o paciente possui ou não a doença, em sua forma mais grave”, comentou Cibele.

 

Combinado com esse conjunto de biomarcadores, o método de coleta de amostras representa uma ferramenta útil para gerenciar a doença e acompanhar a sua evolução. Esta abordagem exploratória já aponta para novas perspectivas ao desenvolvimento de outros ensaios diagnósticos que abranjam outras mutações causadoras da doença.

 

Em geral, as crianças que têm fibrose cística tossem muito, têm retenção excessiva de muco e, às vezes, infecções pulmonares de repetição. Muitas são submetidas a transplante pulmonar e outras não conseguem fazer a digestão completa dos alimentos. Algumas ainda necessitam ingerir enzimas digestivas e podem crescer desnutridas. Esse quadro piora cada vez mais o estado da criança e, dependendo do grau de mutação do gene, pode levar a óbito. “O tratamento da fibrose cística é apenas paliativo”, contou o docente.

 

Cibele comentou que o primeiro teste pelo qual os bebês passam, ao nascer, é o teste do pezinho. Nele, algumas anormalidades indicativas dessa doença já podem ser triadas. Na maioria dos casos, o teste do pezinho apresenta-se normal, mas alguns sintomas (como tosse persistente com secreção, dificuldade em ganhar peso e desidratação sem causa determinável) fazem suspeitar de fibrose cística. A criança então passa por muitos exames e testes até que saia o diagnóstico da doença.

 

O exame tradicionalmente indicado para confirmação da fibrose cística é o teste do suor. Porém, nem sempre o paciente consegue um resultado certeiro, já que há vários graus da doença. “Os procedimentos e análises exigem protocolos bastante rígidos, uma vez que falhas metodológicas são comuns, e o teste não possui dados claros de sensibilidade e de especificidade”, realçou a autora.

 

Somado a isso, a coleta no teste do suor pode produzir desconforto ao paciente, porque chega a demorar até mais de duas horas para ser concluída. Para estimular a sudorese no antebraço do paciente (na maioria, crianças na primeira infância), é feito um estímulo elétrico de baixa voltagem com a substância pilocarpina, por 30 minutos.

 

A sudorese é estimulada e, em cerca de uma hora, se produz suor, o qual é coletado e encaminhado para determinar os níveis de cloro, confirmando o diagnóstico laboratorial. Normalmente, os portadores da fibrose cística possuem níveis de cloro no suor mais elevados que as pessoas saudáveis.

 

“Também, os testes genéticos podem não ser conclusivos, uma vez que mais de 1.500 mutações causadoras da doença já foram detectadas. É realizada apenas a pesquisa das 300 mutações mais frequentes. Além disso, estes testes ficam restritos a alguns centros diagnósticos e a centros de pesquisa, não sendo acessível ao público”, revelou a pesquisadora.

 

Rodrigo Catharino relatou que, na Unicamp, formou-se uma grande parceria de Cibele com um grupo da Pediatria que estuda fibrose cística no Centro de Investigação em Pediatria (Ciped) e que tem produzido trabalhos inovadores, liderados pelos docentes Fernando Ribeiro e Dirceu Ribeiro. “Demos um salto em inovação, pois praticamente não existe atuação hoje em carreira solo. As pesquisas de peso científico envolvem um esforço de muitos atores”.

 

Agora falta a difusão dessa informação para que outros centros diagnósticos possam reconhecer esse grande potencial aqui descoberto. “Estudamos a mutação mais grave do gene CFTR em 40 crianças. Mas acontecem mais mutações e, se difundirmos esse achado para outros parceiros, poderemos trabalhar com diferentes tipos de mutação que também provocam a doença, muitas vezes em graus mais leves, dado que a técnica é altamente sensível e consegue detectar pequenas alterações relacionadas à doença”, esclareceu o professor.

 

Os marcadores encontrados na pesquisa, acentuou ele, não são específicos dessa mutação, mas sim da condição que a mutação induz, ou seja, das características observadas no paciente.

 

Na tese, foram obtidas ao todo duas patentes para a abordagem da fibrose cística e uma para colestase neonatal. As duas patentes relacionadas à fibrose cística estão relacionadas com dois tipos de material biológico: pele e saliva.

 

O mesmo grupo de pacientes (na faixa etária de cinco a 19 anos) avaliado para o teste da pele, com a mesma mutação, foi submetido à coleta da saliva. “A saliva também é um material fácil de ser colhido e, no caso da criança, a sua abordagem não assusta tanto. Coloca-se um algodão em sua boca e da saliva são extraídas moléculas para análise”, descreveu Cibele.

 

Rodrigo Catharino afirmou que a intenção era desenvolver uma técnica menos invasiva, mais simples e mais barata porque os materiais escolhidos são de fácil coleta, podem ser transportados até o centro de análise e, com isso, podem atender mais rapidamente o paciente que chega ao ambulatório.

 

Outra patente obtida nessa investigação foi relativa à colestase neonatal, um sintoma que pode estar associado a várias doenças de causa multifatorial (genética ou viral) e que chama a atenção por causar icterícia que começa em até dois meses de vida do bebê. Além da fisionomia amarelada, ele pode apresentar urina escura e fezes claras.

 

Quando a colestase neonatal aparece, em geral o caso é cirúrgico, requerendo imediata intervenção, para que a criança sobreviva; ou, por ter causa desconhecida, deverá ter tratamento individualizado dos sintomas.

 

Ao invés de trabalhar com saliva e pele, nesse caso emprega-se então o filtro do teste do pezinho. Assim, é possível diagnosticar a doença já na triagem inicial. A partir do teste do pezinho, pode-se descobrir se a criança vai apresentar a doença. Ela não precisa estar sintomática naquele momento para que se descubra a anomalia.

 

“O mais interessante nesse trabalho é já prever na triagem neonatal o que a criança poderá mostrar dali a alguns meses, o que permite tratá-la e melhorar as suas chances de vida”, afirmou Rodrigo Catharino. “Esse estudo ajuda a salvar vidas e está fazendo com que o incentivo do ICMS seja diretamente aplicado em atividades relevantes para a sociedade”. Com informações da Unicamp