Drª Tânia Laboratório Médico

11-Novembro-2017 Hora 11:22   Bactérias resistentes a antibióticos estão associadas a recentes surtos de cólera.

 

 

Antibióticos usados amplamente para conter surtos no passado contribuíram para o surgimento de mutações em cepas na África, diz estudo da Science.

 

Science publicou nessa quinta-feira (9/11/2017) dois estudos com descobertas sobre os últimos surtos de cólera no mundo. Eles analisaram o genoma de cepas da Vibrio cholerae e verificaram a origem e a capacidade de resistência a medicamentos. Os achados podem evitar a ocorrência de uma nova pandemia (quando uma doença se espalha por todas as regiões do globo) -- já que a condição volta com força em regiões vulneráveis. No Iêmen, surto grave da doença ceifou a vida de milhares esse ano.

 

Uma das descobertas que chamam a atenção é o fato de que todas as últimas cepas da bactéria Vibrio cholerae introduzidas na África desde 1980 são resistentes a antibióticos. Antibióticos foram usados por décadas para tratar a cólera, juntamente com terapias de reidratação, explica o estudo. Eles limitam a reprodução da bactéria e, com isso, diminuem a duração da diarreia, diz. O estudo mostra que entre 106 e 109 cópias de bactérias contribuem com a perda de 1 litro de líquido por hora.

 

No entanto, esse amplo uso está associado com o surgimento de patógenos resistentes hoje. A descoberta está em consonância com esforços globais para diminuir o uso de antibióticos no mundo -- esta semana a Organização Mundial da Saúde exortou que a indústria diminua o uso de medicamentos em animais para evitar a transmissão de patógenos resistentes a seres humanos.

 

Os estudos analisaram dados do genoma de 1200 amostras de bactérias ligadas à cólera em todo o mundo -- algumas das amostras datadas de antes de 1950. A maioria das amostras veio da África e da América Latina, regiões que enfrentaram duas grandes epidemias nas últimas décadas.

 

O estudo mostra que uma das linhagens resistentes datam de uma circulação da cólera que ocorreu na Tanzânia em 1977. Na época, o governo usou amplamente antibióticos do tipo tetraciclina para conter o surto.

 

Outras cepas resistentes também datam de surtos ocorridos em 1999 em Madagascar, quando medicamentos foram utilizados para a prevenção. O estudo também cita mutações associadas à resistência que teriam surgidas em Ruanda, para o controle do surto de disenteria em campos de refugiados.

 

Em um dos estudos com foco na América Latina, também publicado na Science nesta quinta-feira (9), cientistas analisaram 252 amostras da bactéria - e descobriram que 164 eram uma variedade de bactéria El Tor (7PET), ligadas a uma variante vinda do sul da Ásia.

 

O achado mostra a necessidade de controle dos patógenos para evitar a disseminação global -- últimas epidemias na região foram verificadas no Peru em 1999 e no Haiti em 2010.

 

A cólera afeta 47 países em todo o mundo e está associada à morte de 100 mil pessoas por ano. O mundo convive com a cólera desde o século XIX, mas as epidemias mais recentes datam da introdução da variante asiática 7PE, identificada primeiramente nos anos 1960.

 

Até 1991, o Brasil estava ileso da cólera, segundo o Ministério da Saúde. Naquele ano, no entanto, a pandemia atingiu o continente sul-americano pelo litoral do Peru, o que levou a doença a 14 países da América do Sul; entre eles, o Brasil.

 

Do Peru, a doença adentrou a selva Amazônica, chegando ao Norte e ao Nordeste do país, atingindo depois áreas mais vulneráveis em outros centros urbanos.

 

No Brasil, entre os anos de 1991 e 2000, foram notificados 168.598 casos de cólera e 2.035 óbitos. Entre 2001 e 2004, sete casos foram notificados. Não há registros oficiais recentes. O último boletim epidemiológico sobre a cólera produzido no Brasil data de 2004, quando um caso foi registrado em Pernambuco.

 

Apesar de não registrar casos atuais, o Ministério da Saúde considera, no entanto, que como há potencial endêmico no País , as ações de vigilância devem continuar presentes.