Diagnóstico e Saúde

19-Dezembro-2015 Hora 11:41   Dr. José Eduardo Levi fala sobre o vírus zika e segurança transfusional

 

 

Com a recente notícia de que um paciente que recebeu transfusão de sangue foi exposto ao vírus zika no interior de São Paulo, acendeu-se a discussão sobre a segurança transfusional no Brasil em relação a patógenos emergentes.

 

Por isso, conversamos com o Dr. José Eduardo Levi, responsável pelo Departamento de Biologia Molecular da Fundação Pró-Sangue, pesquisador do Laboratório de Virologia do Instituto de Medicina Tropical da USP e membro do Comitê de Doenças Infecciosas Transmitidas por Transfusão, da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH).

 

Confira o que ele disse:

 

Como a comunidade científica e de bancos de sangue tem agido com relação aos patógenos emergentes, em especial o vírus zika?

José Eduardo Levi: Eu tenho trabalhado muito com doenças transmitidas pelo sangue e em especial com o grupo dos arbvorírus, que inclui dengue, chikungunya, vírus do oeste do Nilo e o zika, mais recentemente. E minha atuação tem sido sempre a de colocar a ciência e a racionalidade no debate.

Nós, na Fundação Pró-Sangue, trabalhamos com o princípio da precaução. É sempre melhor prevenir do que deixar as coisas acontecerem. E a História nos dá exemplos, como o do HIV, quando vários países decidiram esperar por mais evidências científicas e depois se arrependeram. Nós sabemos que o zika é um vírus relativamente novo (não historicamente).

A primeira grande epidemia aconteceu na Polinésia Francesa, em uma população pequena e o impacto não foi tão difundido, embora alguns estudiosos tenham acompanhado o ocorrido. Esta é a primeira vez que a epidemia está atingindo de fato uma nação populosa e globalizada. E isso aumenta muito nossa responsabilidade, porque temos o hábito de buscar respostas na literatura científica e pesquisas.

 

Existe de fato literatura disponível sobre isso?

José Eduardo Levi: As melhores literaturas científicas provêm dos Estados Unidos e da Europa, onde não existe o zika. Então, desta vez, nós temos que gerar nossas próprias respostas. Neste momento a opinião do especialista e do estudioso é muito importante. Quando as coisas estão claras e estabelecidas, é apenas uma questão de gestão. Mas no caso de zika, nós ainda estamos no debate técnico, por isso há opiniões divergentes sobre o tema. Alguns preferem esperar e se certificar de que haverá implicação e repercussão clínica para depois decidir que medidas tomar. Já outros acreditam ser necessário agir desde já.

 

Já foi reportado um caso de transmissão transfusional de zika. No que isso implica?

José Eduardo Levi: De fato, até agora temos um caso reportado pela Unicamp. Ele aconteceu em março de 2015, em Sumaré, SP. Ironicamente, o primeiro caso autóctone de São Paulo foi de um doador de sangue, o que traz o problema para bem próximo de quem trabalha com transfusão. Pelo que sabemos, não houve repercussão importante no caso do receptor, pois apesar de ter recebido o sangue contaminado, ele não teve zika. Eu e outros pesquisadores temos trabalhado com um caso parecido que é o da dengue. Já foram registrados milhões de casos de dengue no Brasil e nem por isso fizemos testes para esse vírus em bancos de sangue. E é notório que a dengue é transmitida por transfusão no Brasil, não há dúvida quanto a isso. Estudos em várias regiões do país mostram que no pico da epidemia, entre março e abril, chega-se a ter 1 ou 2% dos doadores com vírus circulante. E não vemos casos de dengue transfusional. Existe ainda o caso do vírus do oeste no Nilo, que tem uma repercussão transfusional muito importante. A pessoa que recebe sangue com esse vírus pode ter encefalite, paralisia e outros problemas. Os EUA já fazem a triagem desse vírus há mais de 10 anos. Se fôssemos fazer uma analogia com o vírus da dengue, nós estaríamos investindo muito para algo que não tem repercussão clínica.

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